A bíblia do andarilho
Malditos os que, dos pormenores, não são capazes de extrair a essência vital à existência. A mera contemplação é passível de sentimentos profundos. Aos incapazes de enxergar além do previsível e do que sua zona de conforto permite, resta vaguear errantemente pela superficialidade das relações e pela banalidade dos ciclos diários.
A verdadeira liberdade passa ao largo das convenções sociais. Libertação relaciona-se diuturnamente com o livramento da imaginação; o desapego daquilo que se convenciona aceitável aos turvos olhares sociais. Liberdade conquistada é desprendimento em sua essência. É permitir, eventualmente, que certa abstração apodere-se de nossas mentes, numa espécie de ensimesmamento. Desviar-se do principal e se ater a insignificâncias, por vezes, invoca a plenitude da soltura.
O indelével discernimento entre ‘ser solitário’ e ‘viver na solidão’ perpassa sinuosos caminhos. Para atingi-lo, dolorosos, tenebrosos pensamentos atravessavam a mente. À margem de nirvanas e epifanias, tal entendimento, se consolidado, é constante. Permeia sua existência; norteia seus passos; valida seus gestos e atitudes. A razão não haverá de nos enredar, compulsoriamente, ante os feixes de tensão carregados por essa terrificante tarefa de compreensão e alumbramento. Contudo, aos que dessa distinção retirarem um mínimo de alento, o processo não será tão tortuoso.
A certa altura da vida, toda essa facúndia narcisista, todas essas vacuidades, todos esses intermináveis lugares-comuns nos fartam de tal maneira. A sabedoria adquirida é expressa, precipuamente, na sutileza do silêncio; na forma como encaramos e absorvemos desde as mais risíveis situações até os mais truncados engodos. Irromper a inércia dos pensamentos representa o júbilo da alma. Mirar-se em excessivos desdobramentos retóricos desvela mazelas incorrigíveis do ser humano. Inversamente, a estática e a pasmaceira ante o (ir)real descortinam a incapacidade de aprofundamento das relações, o que, em muitos, faz morada e assenta suas bases inertes de conforto.
Encontrar-se entre o deslumbramento e o realismo chega a ser utópico, porém, é possível aos que se permitem doses de irreprimíveis súbitos de contemplação. Para tal, sorver a vida em todo o seu rebuscamento faz-se necessário. Na simplicidade, há nuances, escarpas, matizes e intrigantes tipificações prontas a serem devidamente esmiuçadas e vivenciadas. Furtar-se a questionar e a apreciar é abster-se dos mais primários sentimentos humanos. É renegar a pulsante e premente necessidade espiritual (quase carnal) de irrigar corpo e alma com o elixir, balsâmico e confortativo, da vida em sua crua acepção.
Caminhar, plainando; cantar, pulsando; respirar, sentindo; lançar-se, crendo; enxergar, admirando; pensar, reflexionando; entregar-se, livrando-se; viver, vivendo.
Do simples ato de viver, somos guiados à roda do conformismo e resignação. Romper tal estado trará, pois, a incógnita libertação, o controverso discernimento, a plena realização e a esperada sabedoria. Felicidade, ah, felicidade! O processo há de ofertá-la em algum momento. Passageira como sempre foi, e o será. A qualidade de persistir, da indomável paciência, transporá as pedras que se oferecerão no inglório caminho de fugir a pura e simples aparência.
Diego Gomes


