Pílulas retrospectivas e analíticas da Copa do Mundo de 2010
Espanha – a consagração do futebol: Numa época em que no futebol mundial prevalecia, quase que invariavelmente, a máxima da força física suplantando a técnica, a Espanha conseguiu buscar um diferencial. Com um esquema envolvente – que consiste na simples premissa de bola rolando, passando de pé em pé, na intermediária dos adversários –, a Fúria encantou o mundo. Basilares nessa sincronia de passes, Xavi, Iniesta e Xabi Alonso orquestraram Villa, Busquets, Pedro, Fernando Torres etc. A bem da verdade, caso essa engrenagem ofensiva falhasse, Sergio Ramos, Piqué, Puyol, Capdevila e, principalmente, Casillas repeliam, com maestria, as inevitáveis investidas adversárias. A esse irresistível time, somou-se o espantoso potencial advindo do banco de reservas. A fúria se deu ao luxo de manter, entre os seus reservas, nomes como os de Fábregas, David Silva, Navas e Llorente. Assim, de forma indiscutivelmente meritória, a Espanha ascendeu ao seleto grupo de campeões mundiais.
A raça da celeste olímpica: Contestada pelo nível técnico apresentado, a Copa do Mundo de 2010 também reservou gratas surpresas. A começar pelo irresistível despertar da celeste olímpica – presente para os amantes do futebol. Que atire a primeira pedra aquele que, conhecedor e apreciador da categoria, não se entusiasmou ao se deparar com o contagiante time apresentado pela seleção uruguaia, que resgatou sua gloriosa história e irrompeu a eterna decadência pós-década de 1970. Forlan, Lugano, Fucille e Soarez empolgaram a todos com um estilo à la Boca Juniors em seus áureos tempos de Libertadores. Com um pouco mais de eficiência nas finalizações e zelo na retaguarda, certamente teria conquistado o honroso terceiro lugar. O Uruguai, todavia, representou dignamente a América do Sul, reacendendo a garra e a técnica tão peculiares à região.
Inesperado: Ainda no campo das surpresas, está a jovial e talentosa equipe alemã. Ozil, Muller, Boateng, Podolski, Schweinsteiger, Trochowski. Nomes que ainda hão de ecoar, por muitos anos, pelo mundo futebolístico, com chances, quiçá, de serem protagonistas na próxima Copa. Ao jogarem por terra a velha e inconteste máxima de que o futebol germânico se caracteriza pelo pragmatismo (força física aliada à eficiência tática), os comandados de Joaquim Low, que chegaram em solo sul-africano desacreditados, fizeram os olhos de muitos marmanjos brilharem com ataques insinuantes, incisivos e mortais; tabelas desconcertantes; e muitos gols. Para chegar à final, faltou traquejo e malandragem nessa seara – o que havia de sobra nos vizinhos espanhóis. A técnica seleção alemã conquistou um terceiro lugar meio a contragosto, pois tinha potencial para almejar o lugar mais alto do pódio.
Das 32 seleções que iniciaram a disputa nessa Copa do Mundo, as três listadas acima foram as merecedoras de maior destaque. Embora tenha chegado ao jogo decisivo, a Holanda não apresentou nenhuma novidade empolgante. Com dois bons jogadores – Sneijder e Robben – e meia dúzia de robozinhos táticos, a laranja mecânica apresentou um sistema eficiente que, com um misto de certo talento e muita disciplina tática, conduziu-a ao vice-campeonato. Se de justiça fosse feito o futebol, a Holanda estaria apenas entre os oito melhores.
Por quê, África? Por quê?
Se raça, empenho e força de vontade assegurassem canecos, o continente africano já teria, pelo menos, dois títulos mundiais. Nessa Copa, a história se repetiu. Muita expectativa em torno de badaladas seleções africanas, com jogadores consagrados no velho continente e experientes técnicos. Costa do Marfim, Camarões e Nigéria foram decepções retumbantes. Os Bafana-Bafana, dentro de suas limitações, até cumpriram um honroso papel. Gana, fazendo do seu nome sua principal característica, chegou entre os oito, mas sem muitas expectativas de ir além disso.
Falta ao futebol africano profissionalização de dentro para fora, ao contrário do que historicamente ocorre. Há necessidade premente de se investir em categorias de base (haja vista o sucesso do trabalho de Gana com os jovens, que, já nesta Copa, surtiu algum efeito), reforçar campeonatos nacionais, bem como capacitar profissionais da área, dispensando, assim, a ida de técnicos estrangeiros, sem a menor identificação cultural com os países. Só assim alguma seleção do continente poderá, futuramente, alçar voos mais ambiciosos.
O remorso tupiniquim
Novamente a seleção brasileira foi uma verdadeira decepção. A exemplo da Copa de 2006, o time de Dunga chegou badalado no torneio, credenciado pelas conquistas da Copa América e da Copa das Confederações, além do primeiro lugar nas Eliminatórias e de convincentes vitórias diante de seleções tradicionais. Ledo engano. No primeiro momento de adversidade, o grupo, que, até então, havia se notabilizado pela frieza, disciplina, controle de jogo e pragmatismo, acabou sucumbindo diante da limitada Holanda. Uma pena.
Dessa frustrante experiência, pôde-se extrair algumas conclusões: Kaká não serve para ser o principal nome da seleção – invariavelmente decepciona; faltou talento no banco para suprir carências táticas no meio de campo e no ataque, e surpreender os adversários; Felipe Melo é um destemperado, mas não o único culpado pela eliminação; e Dunga, apesar de tudo, desempenhou bem a sua função.
Fica expectativa, no entanto, da prodigiosa geração que vem por aí. A seleção tem tudo para iniciar um gradual processo de reformulação com grandes chances de obter êxito. Paulo Henrique Ganso, Neymar, Anderson, Hernanes, Ramires, Daniel Alves, Rafinha, Miranda, Thiago Silva, David Luiz e André podem conduzir a seleção brasileira de volta aos píncaros do futebol mundial. E o cenário não poderia ser melhor: a próxima Copa do Mundo terá como sede o próprio Brasil.
A Ferrari hermana
Já os hermanos deixaram a impressão de que Maradona, um medíocre condutor de charrete, tinha em mãos uma autêntica Ferrari, a qual não soube dirigir. A Argentina dispunha (e ainda dispõe) de um dos melhores elencos do mundo, à exceção da defesa – fiasco creditado na conta de Dieguito. O técnico simplesmente abriu mão dos excepcionais e experientes Zanetti e Cambiasso, privilegiando os pesadíssimos Samuel e Demichelis. Um horror. De todo modo, o time, mesmo classificado aos trancos e barrancos nas eliminatórias sul-americanas, possuía potencial para engrenar na competição. Mas, não foi o verificado. Quando a seleção foi de fato exigida – no jogo diante da Alemanha, pelas quartas de final –, não resistiu e levou uma acachapante goleada dos germânicos.
Devo ressaltar, porém, que a Argentina reúne condições de se reerguer e ser, mais uma vez, uma das grandes forças do próximo mundial, especialmente em função do fator “Messi”. É inegável que se trata de um estupendo jogador. Quando este está em campo, mesmo com atuações discretas, consegue finalizar mais de 90% de suas incisivas jogadas, sempre com começo, meio, fim e maestria.
As decepções
Itália, Ribery, Camarões, França, Rooney, Costa do Marfim, Inglaterra, México, Portugal, Servia, Cristiano Ronaldo. Todos esses nomes nos remetem a apenas um termo, em se tratando de suas performances em território sul-africano: decepção. A até então campeã mundial, Itália, foi um verdadeiro fiasco, uma tragédia grega – campanha sofrível, nenhuma vitoria, último lugar do seu grupo. A Inglaterra chegou com pompa de favorita, com estrelas experientes do futebol mundial e Rooney em ótima forma (apesar da lesão que o acometeu dias antes do torneio), mas foi embora ultrajada e humilhada. Costa do Marfim, Camarões, Sérvia e Portugal não foram a lugar algum com suas super-estrelas solitárias. E o México? Ahhh, o México… “Lo de siempre”, jogaram como nunca e perderam como sempre.
A consolidação da história
O marco inicial foi em 1995 com decisão do mundial de rúgbi – o histórico jogo entre a anfitriã sul-africana, os “Springboks”, historicamente alinhada à elite branca do país, contra os quase imbatíveis neozelandeses. À época, o então novo presidente da África do Sul, Nelson Mandela, valeu-se da ocasião para decretar, de fato, o fim do regime de segregação racial e social que afligia a nação havia anos; uma tentativa de unir brancos e negros em torno de um só objetivo – e o país foi campeão mundial naquele ano. Ali, iniciou-se um gradual e longo processo de desconstrução de valores torpes, dúbios, que vão contra a quaisquer tratados internacionais cujas bases estão assentadas na carta de direitos humanos. Embora os “Bafana-Bafana” não tenham apresentado desempenho semelhante ao da seleção campeã no rúgbi, a Copa de 2010 representou outro marco para esse lento processo de unificação de um povo e de afirmação de uma nação junto à comunidade internacional.
Mandiba começou tudo isso. Ele sem dúvida foi o principal fator propulsor para essa guinada histórica. O delírio e a ovação pela presença de Nelson no Soccer City, por ocasião da decisão entre Espanha e Holanda, dão uma pequena amostra do quão esse homem representa para a história não só da África do Sul, mas da humanidade. Inspirados e certos de que estavam vivenciado mais uma etapa de um ciclo, os sul-africanos, com as inevitáveis falhas, realizaram um torneio gracioso, com competência e muita receptividade, valorizando sua cultura e seus costumes.
Gigante adormecido
Afora toda a questão socioeconômica histórica que envolveu a tripartite Copa, África do Sul e continente africano, uma importante e estratégica contribuição foi deixada pelo torneio: o significativo aumento do interesse dos norte-americanos pelo futebol. Segundo o jornalista Erich Beting, do portal Uol e do site Máquina do Esporte, “na África, o maior legado é a “febre” americana”. As partidas do USA Team bateram recorde de audiência num horário incomum (às tardes), superando os números das finais da NBA e do hóquei, transmitidas em horários nobres.
Ninguém entende tanto de negócios do esporte quanto os americanos. São eles, afinal, os inventores dos primeiros casos de promoção de marcas por meio das competições esportivas, desde o começo do século 20. Mas, até então, o futebol vivia meio que à margem dessa realidade dos Estados Unidos. Se realmente o Mundial africano conseguiu suscitar o interesse desse gigante, especialista em fazer do esporte um show para o público, podemos estar diante de uma auspiciosa noticia, capaz de impulsionar a completa globalização do esporte mais globalizado do mundo. E o impacto poderá ser sentido nos próximos anos, com aumento do interesse de TVs, empresas e público americano pelo futebol.
A copa do Afana-Afana
Finda-se a copa dos Bafana-Bafana, inicia-se o ciclo da copa do Afana-Afana, no qual meia dúzia de empreiteiras e alguns parasitas políticos irão se refestelar com a farra de dinheiro público. Aliás, a disputa da copa no Brasil já começou há muito, com os jogos de politicagem emplacando vergonhosos resultados.
Sou um entusiasta da causa. Acredito que, para o país, é extremamente pródigo receber eventos dessa envergadura. Minha preocupação, contudo, reside no fato de que, ao termos em mãos tamanha responsabilidade, corremos o sério risco de pagar um mico retumbante perante o mundo, caso o que está começando a se configurar se concretize: atraso irremediável de obras, contratos emergenciais sem licitação, falta de projetos decentes de mobilidade urbana, aeroportos sucateados, malha viária e ferroviária em péssimas condições, transporte público insuficiente e de qualidade questionável. Torço para que tal desgraça não acometa um país tão rico e promissor como o Brasil. Desejo que o Brasil organize um torneio impecável, do qual nos orgulharemos, sem máculas ou manchas em mais um capítulo da história brasileira, repleta de episódios de incessante exploração e interesseiros que sugam todas as nossas riquezas, sejam elas naturais ou públicas.



