O rebolation baiano
Uma atípica incursão ao litoral brasileiro durante o inicio do período mais prodigo do ano para o estabelecimento de interações sociais. Assim conheci a essência do povo mais simpático e hospitaleiro deste país – o baiano. Com parcas e isoladas referências, apenas aquelas aventadas exaustivamente pela mídia, aventurei-me pela terra de todos os santos. Foi pouco menos de uma semana. Poucos dias, sim, mas suficientes para se chegar a algumas entusiásticas observações.
Habituado com o semblante sisudo e com a postura exageradamente austera dos brasilienses, fiquei surpreso com o jeito solícito dos baianos. O sorriso que emana espontaneamente dos rostos queimados pela incessante exposição ao portentoso sol. A empatia quase instantânea. O simples pedido de informação que descamba para uma conversa de quase compadres.
Aliás, fornecer informações por aquelas bandas é uma tarefa tão corriqueira na vida dos soteropolitanos como ouvir o som do “Rebolation” por onde quer que se vá. O despojamento das pessoas é tamanho que, confesso, chega a ser assustador andar num taxi no qual o motorista dança freneticamente (enquanto dirige!!!) ao som desse sucesso de no máximo quatro versos.
Um lugar de calor implacável e acachapante. Na há para onde fugir. É calor ou calor. Chuvas?! São tão passageiras quanto as pencas de turistas que se amontoam por lá nesta época. A noite, que poderia ser um refúgio para os avessos a climas, por assim dizer, tão densos, normalmente carrega consigo todo o mormaço acumulado ao longo do dia. O alento, no entanto, fica por conta das irresistíveis brisas advindas do oceano, que envolvem a todos como uma echarpe natural, proporcionando momentos únicos de frescor.
Por falar nas infinitas águas do litoral baiano, devo ressaltar que embora Salvador apresente os mesmos problemas de grandes metrópoles brasileiras – congestionamento, lixo nas ruas e nas praias, segregação social, concentração de renda, transporte público decadente, sucateamento dos sistemas de saúde e educação, poluição das águas etc – tudo é compensado e relevado (momentaneamente, claro!) quando nos deparamos com as irretocáveis visões das paradisíacas praias em contato com a urbanidade de uma cidade – uma tentativa natural de humanizar um lugar quase desumanizado. Trata-se de um contraponto de peso, capaz de desviar o nosso foco dos problemas pontuais do dia a dia e nos levar a viajar, ao menos por instantes, nessa imensidão, no limiar da infinitude.
Carnaval para os baianos transcende qualquer mera manifestação popular. Para eles, a festa representa a marca de um povo, uma espécie de religião
politeísta mundana, tendo como deusa-mor a carismática e original Ivete Sangalo. Além disso, é visível o orgulho, estampado no olhar de cada baiano, de fazer parte daquele lugar, daquela sinergia única, daquela confraria movida pela fé, tão presente em edificações e monumentos da cidade.
Assim como cada cidade brasileira ostenta costumes que caracterizam e determinam as peculiaridades de seu povo, Salvador possui alguns hábitos no mínimo inusitados. O que mais me chamou a atenção foi a intrigante (e irritante!) mania dos motoristas, que buzinam a esmo, sem nenhum motivo aparente, movidos, acredito, pela força do hábito – sem falar dos motoristas de ônibus que falam deliberadamente ao celular (!) enquanto cumprem seus itinerários.
Já o sotaque baiano é gracioso e, não raro, cômico. Um aspecto marcante da população, objeto de identificação cultural, que mantém firmes os laços dos nativos com a sua terra natal, uma irrefutável e irrevogável herança cultural.
P.s.: Também aproveitei minha estadia na terra do Axé Music, que, deixo claro, abomino, para prestigiar o espetáculo do maior ícone da indústria fonográfica na atualidade: Beyoncé. A diva, com uma indescritível e singular potencialidade vocal, não decepcionou as dezenas de milhares de pessoas que compareceram ao Parque de Exposições para contemplá-la, presenteado-as com um festival de pirotecnia digital, com telões gigantescos em alta definição e figurinos pitorescos, e esbanjando simpatia – sem forçar a barra com o nosso idioma, como muitos estrangeiros o fazem quando pintam por aqui. O único (e determinante) aspecto negativo que apontaria dessa festa se refere justamente a uma premissa básica que sempre busquei obedecer – jamais participar de grandes manifestações públicas em lugares abafados onde não é possível sequer respirar. Era uma inestancável profusão de sensações, odores e grunhidos nem-um-pouco aprazíveis, proporcionada pelo excesso de pessoas no mesmo metro quadrado. O resultado por ir contra a essa regrinha particular foi uma quase desidratação, muita confusão com pessoas “phynnas” e pernas e braços triturados. Coisa básica!
P.s.1: [Momento Nonsense] As camisas do Palmeiras são disparadas as mais populares em Salvador, em uma proporção de cinco por uma, em relação à segunda colocada. Claro que isso não serve como amostragem ou levantamento, mas, nos dias em que estive por lá, foi o que constatei! Pronto, falei!





Foi bem assim!
Brilhante texto, ótima descrição!
eu sou o lobO mau au au au …VOU TE COMER VOU TE COMERRRR